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Dinamarca “força” integração de imigrantes rumo à meta de não ter guetos – @gazetadopovo

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Resumo da reportagem

  • A Dinamarca está executando um programa estatal para desmantelar “sociedades paralelas” de imigrantes não-ocidentais, visando reduzir guetos e promover a integração até 2030.
  • Estratégias incluem a realocação de inquilinos e a diversificação de ambientes escolares para crianças imigrantes.
  • O programa tem apoio político amplo, mas também enfrenta críticas quanto à potencial discriminação e eficácia.

No último sábado (28), centenas de milhares marcharam pelas ruas de Londres, Bagdá, Kuala Lumpur, Istambul, Wellington, Roma, e Estocolmo pedindo que Israel encerre sua resposta militar ao ataque terrorista que sofreu há menos de um mês. Muitos dos manifestantes disseram que só estão preocupados com as crianças palestinas e as vidas de outros civis inocentes em Gaza, mas entoaram coros como “Palestina livre do rio [Jordão] ao mar [Mediterrâneo]”, um canto que nada tem de inocente, pois uma Palestina que vá do Rio Jordão ao Mar Mediterrâneo significaria a eliminação de Israel. Outra das capitais onde o canto foi entoado é Copenhague, Dinamarca.

O pequeno país escandinavo, entretanto, é o único da lista que
tem um programa estatal em andamento que lida diretamente com uma preocupação
incitada pela marcha: que imigrantes estariam trazendo valores incompatíveis
com o Ocidente para suas vizinhanças. Desde 2018, a Dinamarca reduziu em dois
terços o número de guetos, ou “sociedades paralelas”, que imigrantes ocupam
falando a própria língua e evitando se integrar à cultura local. A meta é ficar
livre desse tipo de comunidade até 2030, atingindo um limiar máximo de 30% de
imigrantes não-ocidentais em todas as áreas residenciais do país. Até o ano
passado, restavam dez sociedades paralelas.

O plano, que trocou o termo “gueto” por “sociedade
paralela”, foi implementado porque “buracos foram abertos no mapa da
Dinamarca”, diz o documento fundador do programa em 2018. A ideia não é
expulsar imigrantes do país, mas diluir sua presença nas áreas residenciais
para que sejam reintegrados com mais facilidade. Para isso, o governo usa de
estratégias como realocar os inquilinos de residências estatais e privatizar
moradias sociais para que os novos donos possam aplicar a política. Além disso,
filhos de imigrantes são integrados às escolas em ambientes mais diversos que
teriam nas comunidades originais.

Para os autores do documento, essas comunidades isoladas da
cultura ao redor “não participam ativamente da aquisição da língua
dinamarquesa, da sociedade e do mercado de trabalho. Temos um grupo de cidadãos
que não abraçam as normas e valores dinamarqueses”. Em caso raro de
continuidade, Mette Frederiksen, primeira-ministra desde 2019 e líder do
partido Social-Democrata (portanto, de base intelectual de esquerda), apoia a
política, que foi implementada pelo seu antecessor Lars Rasmussen, do partido
de direita Venstre.

Desde 2010, autoridades dinamarquesas mantêm uma lista de
sociedades paralelas. Para ser considerada paralela, uma comunidade deve ter
maioria da população local de origem não-ocidental e exibir índices de renda, criminalidade,
desemprego e de níveis educacionais considerados problemáticos. Em 2021, foram
incluídas, por votação em ampla maioria do parlamento, três categorias adicionais
de comunidades sob observação: “áreas de prevenção”, “áreas residenciais
vulneráveis” e “áreas de transformação”. As duas primeiras têm critérios que
sugerem risco de sociedade paralela, a última categoria é para regiões em que a
política está sendo aplicada.

Está funcionando? Um relatório
de abril de 2022 do Ministério do Interior e da Saúde relata que, desde 2020, as
realocações levaram a “mais emprego, mais acesso à educação superior e ao
ensino fundamental e maior renda média”. As autoridades informam que a
proporção de crianças imigrantes “com pelo menos um dos pais sem conexão com o
mercado de trabalho ou educação nos 12 meses anteriores caiu de 71% em 2016
para 56% em 2021”. A criminalidade apresentou o resultado menos positivo,
permanecendo estável ou aumentando levemente nas sociedades paralelas de 2018 a
2021.

No último dia 9, o Ministério Social, de Habitação e do
Idoso da Dinamarca publicou
que o plano das sociedades paralelas “entrou em uma fase crucial” e fez uma
cúpula de discussão com convite para outros ministérios, prefeitos, deputados e
diretores de organizações de moradores em Tingbjerg, um bairro suburbano de
Copenhague que ficou livre de guetos. Foram construídas 1500 novas residências
privadas no local, novas áreas verdes e uma creche.

A ministra Pernille Rosenkrantz-Theil declarou que “todas as
crianças devem ter a oportunidade de crescer em um ambiente seguro” e que “se
vamos ter sucesso na integração, não nos ajuda ter áreas em que a cultura da
maioria [local] não é a cultura da maioria [geral]. A coerência é criada pela
convivência para além de divisões culturais e sociais. Fizemos grande progresso
no acordo das sociedades paralelas, mas ainda há uma parte do caminho a
percorrer até a meta”.

O jornal dinamarquês Berlingske comentou
que os protestos anti-Israel criaram constrangimento para o ministério: “mais
da metade dos participantes da cúpula das sociedades paralelas apontaram perante
a ministra o grande elefante na sala”, disse a publicação um dia após o
encontro e três dias após o ataque terrorista do Hamas. “A integração está
progredindo, o número de sociedades paralelas está caindo, mas por que centenas
escolhem protestar contra Israel enquanto a organização terrorista Hamas ainda mata
civis?”

Segundo o site de notícias TV
2 Kosmopol
, ao menos quatro protestos pró-Palestina aconteceram na
capital dinamarquesa desde o início da guerra Israel-Hamas, com presença de
centenas a milhares de pessoas. As fotos mostram praças com muitas bandeiras da
Palestina e participantes usando o véu islâmico e o cachecol keffiyeh,
com o padrão xadrez usado por Yasser Arafat. No mesmo período, houve eventos
pró-Israel mais discretos, como um jantar promovido pela Sociedade Judaica, com
222 convidados, para lembrar os reféns tomados pelo Hamas.

A integração escolar tem trazido manchetes chamativas. Após
um influxo de filhos de imigrantes não-ocidentais na escola Munkevænget, na
cidade de Kolding, a revista de educação Folkeskolen, resumindo
a cobertura de outros veículos, disse que “a escola sofre com um grande grupo
de estudantes com comportamento ameaçador, agressivo e desrespeitoso
direcionado aos professores e aos outros alunos”. O grupo teria criado uma
“polícia do haram” (termo muçulmano para alimentos e itens proibidos) que
acossa outros estudantes se comerem carne de porco e os pressiona a respeitar o
jejum do Ramadã. Três professores pediram demissão e acusaram a diretoria de
indolência. Um aluno do grupo agressivo ameaçou estuprar a filha de um dos
professores. Há também retaliação: um grupo impopular de quatro ou cinco
ativistas anti-islã queimou um Corão na porta da escola este mês, cercado por
15 policiais. As aulas foram canceladas durante o protesto.

Críticas ao programa de desmantelamento das sociedades paralelas na
Dinamarca

Para o governo dinamarquês, o Brasil não é Ocidente.
Inclusos na categoria são os membros da União Europeia e exceções como
Austrália, Canadá, EUA, Nova Zelândia e o Vaticano. “De acordo com críticos, o
efeito disso é que não-ocidental significa, desproporcionalmente, não-branco”,
comentou há um ano o jornal Copenhagen Post, o maior do país em língua
inglesa. Falando ao jornal, o acadêmico David Secchi, da Universidade do Sul da
Dinamarca, disse que ficou “chocado com as alegações que estavam sendo feitas sem
uma gota de evidência” no plano. “Não há nada chamado ‘sociedade paralela’ no
mundo acadêmico. Não há literatura a respeito”. Ele fez modelos de computador
que teriam mostrado que “é muito improvável que pessoas com um conjunto similar
de valores não-ocidentais se agreguem numa área específica de uma cidade”.

O engenheiro indiano Amandeep Midha, há uma década no país,
se sente discriminado e precisou alterar seus planos de se mudar para
determinada vizinhança para não aumentar a porcentagem local de residentes
não-ocidentais. “Todo o entendimento de imigrante [do governo] é baseado em um
estereótipo de árabe patriarcal, brutal e meio terrorista do Oriente Médio”,
reclamou ele ao Copenhagen Post. “Imagine a sina dessas pessoas. A
próxima geração vai crescer pensando que foi expulsa de alguma vizinhança por
causa da cor de sua pele”, completa.

A maior sociedade paralela no país, na lista das 10 últimas,
é Mjølnerparken, um condomínio no bairro de Nørrebro, na capital, que tem 80%
de não-ocidentais entre seus 1500 habitantes. No final de 2021, a revista
britânica The Economist noticiou que os residentes estavam usando suas
sacadas para expor mensagens de protesto como “nunca vou me mudar”. Em janeiro
deste ano, a agência de moradia do Ministério do Interior e da Saúde aprovou a
venda de dois blocos do condomínio. Os inquilinos abriram um processo judicial
por discriminação contra o ministério.

Em maio de 2022, o Parlamento Dinamarquês passou uma série de peças legislativas para ajustar as boas-vindas a refugiados ucranianos. Fugindo da guerra desde a invasão russa e considerados não-ocidentais pelas normas do país, eles foram distribuídos pelas áreas residenciais em conformidade com as normas contra a formação de guetos ou sociedades paralelas.

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